terça-feira, 27 de março de 2012

Sem-abrigo como pontos de acesso à Internet: projecto solidário ou experiência degradante?

" Chamo-me Clarence. Sou um ponto de acesso à Internet 4G.”



Era assim a frase estampada nas t-shirt de vários indivíduos sem-abrigo durante o festival de cinema, música e tecnologia South By Southwest, no Estado Norte Americano do Texas. Esta accção tinha como objectivo promover o acesso à Web para todos os utilizadores de telemóveis, tablets e computadores portáteis, enquanto circulavam pelas ruas desta cidade.  
A ideia começou por ter um objectivo solidário, mas explodiu na cara dos seus criadores. Usar pessoas sem-abrigo como pontos de acesso à Internet é um incentivo à inclusão social, ou é pura e simples exploração?
O projecto da empresa de marketing BBH Labs terminou na passada segunda-feira e desde então tem ocupado um espaço considerável nos principais jornais norte-americanos, nas redes sociais, nos blogues e nas caixas de comentários um pouco por toda a Web.
Numa mensagem publicada a 6 de Março no site oficial, a empresa BBH Labs apresentava o projecto e não deixava margem para dúvidas sobre as suas intenções: “O festival SXSW é uma oportunidade de crescimento consistente para a nossa equipa. Mas este ano vamos também lançar uma inovação na área das acções de caridade”.
A descrição do projecto surgia logo abaixo: “Este ano, em Austin, enquanto andam de um lado para o outro a queixarem-se aos seus colegas sobre a fraca qualidade das vossas ligações e do facto de não conseguirem fazer downloads, transmissões em tempo real, usar o Instagram ou fazer ‘check-ins’, vão dar de caras com pessoas posicionadas estrategicamente e vestidas com uma t-shirt com a frase ‘Homeless Hotspots’. São pessoas sem-abrigo, que fazem parte do programa Case Management, da instituição Front Steps. Transportam aparelhos MiFi [routers que permitem acesso à Internet sem fios]. Apresentem-se a eles e liguem-se a uma rede 4G através dos vossos telefones ou tablets para conseguirem usar uma ligação rápida e de alta qualidade”.
As pessoas eram convidadas a pagar o que quisessem, “de preferência através do PayPal, para ser possível acompanhar as transacções”, sendo que todos os donativos iam directamente para os bolsos de Clarence e dos seus outros colegas ligados ao abrigo Front Steps.
Apesar de o projecto ter sido apresentado no dia 6, a polémica só estalou no dia 11, num post no blogue de tecnologia ReadWriteWeb: “O South By Southwest de 2012 pode ser resumido desta forma: uma empresa de marketing com um nome impossível, chamada Bartle Boogle Hegarty, está a levar a cabo uma pequena experiência de ciências humanas denominada 'Homeless Hotspots'. Dão aparelhos de acesso à Internet a pessoas sem-abrigo, juntamente com uma t-shirt. Na t-shirt não está escrito ‘Eu tenho um ponto de acesso 4G’. Está escrito ‘Eu sou um ponto de acesso 4G”.
A partir daqui, o jornalista Jon Mitchell, do ReadWrite Web, dá início à discussão que já chegou às páginas de jornais como o The New York Times: “Podem adivinhar o que acontece depois. Pagam o que quiserem a estes sem-abrigo, pontos de acesso humanos à Internet, e depois podem sentar-se ao lado deles a ver o email ou outras coisas do género. A exclusão digital nunca nos tinha atingido tão em cheio com uma demonstração tão grotesca de provocação inconsciente”.
Aqui está algo que nos suscita algumas dúvidas em relação às verdadeiras intenções da empresa marketing BBH Labs. Sendo Responsabilidade Social  uma forma de conduzir os negócios da empresa de uma certa maneira que a torna parceira e corresponsável pelo desenvolvimento social, não fica aqui bem patente se a markeing BBH Labs tem a visão focada exclusivamente em lucros em prol da organização, ou se realmente pretende que estes indivíduos possuam o algum tipo rendimento que lhes permita uma reinserção na sociedade.

Fonte: Jornal Público Online

1 comentário:

  1. Aqui está algo que nos suscita algumas dúvidas em relação às verdadeiras intenções da empresa marketing BBH Labs. Sendo Responsabilidade Social uma forma de conduzir os negócios da empresa de uma certa maneira que a torna parceira e corresponsável pelo desenvolvimento social, não fica aqui bem patente se a markeing BBH Labs tem a visão focada exclusivamente na obtenção de lucros, ou se realmente pretende que estes indivíduos possuam o algum tipo rendimento que lhes permita uma reinserção na sociedade.
    O facto de requisitar indivíduos sem-abrigo e de a frase da camisola ser um pouco agressiva por apresentar o verbo “Ser”, levou as pessoas a pensa que isto seria mais uma acção de aproveitamento de indivíduos que desesperadamente precisam de algum rendimento, do que propriamente uma acção de tentar inserir estes indivíduos a nível social.
    Aqui está bem demonstrado que por vezes as acções de responsabilidade social, embora sejam por uma boa intenção, podem reverter-se e prejudicar automaticamente a imagem e reputação de uma organização. É importante salientar ainda, que a opinião pública bem como os media tem uma capacidade extrema de distorcer ou influenciar qualquer imagem e reputação, seja ela de um individuo ou de uma organização.

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